quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dando corda

Há certas imposições fugazes e completas. Tão naturais que nos assombram com fantasmas e retornam junto às nossas memórias. O exemplo fecundo disso é a mulher, que é um mito. Como todo mito, não se faz por si só. Depende do sentimento, olhar, dizer, e crença – do outro – de que aquilo é algo especial por parte daquele.

Não existe outro ativo quando aterrissa um mito. No silêncio o barulho é ensurdecedor. Paira um eco no ar. O exagero faria parte do mais singelo presente que poderia ser dado à visita do mito. O momento se comove, é possível retorcer a própria espinha para a melhor postura e tentar ficar o máximo aprazível para a rara entrada. Em geral é um bonde que passa. Um banda em que não se pode levar a namorada para ver. Mas mesmo ela se molestaria frente ao turbilhão de sedução que brinda o ambiente. Chega a tal ponto de afogar os despreparados e embebedar os solícitos. É como se fosse a coisa mais completa do mundo, mas sem representação material, pois o próprio corpo – por inteiro – é a própria coisa.

Quase duas horas da tarde, o movimento era fraco. Eu trabalhava como caixa na loja de biquínis e outros apetrechos de interesse feminino. Como no dia mais pairavam moscas que clientes, ficávamos conversando, eu e as funcionárias(a desigualação se dá porque eu era o filho da dona, então visto como patrão), falando de qualquer coisa, eu no balcão e as vendedoras do outro lado daquela coisa branca que nos separava, onde só eu as via, mas elas só viam minha metade. Isso já nos colocava em situação adversa. Por mais que eu tentasse articular situação entre iguais. Impossível naquele palco. Um montão de colorido nas prateleiras, onde as mulheres se esbaldavam, provando e provando biquínis e maiôs. Era uma festa, um sustento de afagos pelos objetos que adornam o corpo. Impressionante, como se a roupa fosse preencher algo que faltava por dentro. Tanto que algumas iam de dois em dois dias fazer compras, ou até duas vezes no mesmo dia – para as mais carentes. ‘Faz bem ao espírito’. Manter a plasticidade, e se podes, com o melhor e de maior preço, realmente um bom afago para o ego. Mas que nunca se põe completo. Passa a ter desejo inflacionado.

Em geral esses eram os olhares que eu tinha com exímio espectador desde o balcão. Era imóvel, ou enganando os olhos com os livros, leituras na internet, ou descaradamente entendendo aquele mundo. Daquelas centenas de mulheres que passavam pelo balcão, muitas delas lindas, gostosas, graciosas, simpáticas, e em momentos raros, passava algum mito.

Na tarde de sol forte, o barulho dos ventiladores ligados não permitia o som do rádio que eu queria ouvir. Estava terrível. Ainda assim um momento tranqüilo – não vendíamos por não haver movimento, mas, por outro lado, estávamos livres daquelas vozes finas e renitentes de provador; mesmo finas eram vorazes, e sabe lá o que ocorria naquelas cubículos, onde restava as peças para provar, o espelho, a luz focal e o pernicioso olhar de cada uma.

E foi nessa mesma tarde que apareceu um desses incomuns fatos, a chegada do mito que aqui discorro. O faço porque foi uma promessa do momento. E também não era qualquer. Pudera, nenhum mito é qualquer. Era algo no limite do fantástico. Com uma graça, mesmo sem simpatia, fazia abria a boca de todos e todas. Por mais que só os homens babassem, as mulheres sofriam de espanto, inveja ou raiva. Não havia saída, ela entrar e calou toda a conversa que estava sendo realizada. Impusera um novo ritmo para os meus ouvidos. Nem música do rádio, barulho de carro, cochicho das vendedoras, nada, por fim nada cabia ou conseguia penetrar naquele novo que estava. Era um domínio opressivo. Sem mesmo querer, ou, quiçá, vivendo de uma vida em que tinha que ser observada, alcançava os que estavam mais longe para vê-la. Sua circunstância trazia uma pompa imensa, rasgava o ar com seus passos. Era incrível!

Como de praxe a moça que atende foi abrir-se, para a nova cliente que entrara, com a típica frase “o que desejas!?”. Como se fosse servi-la. A maneira principesca do mito – uma menina-mulher de uns dezoito anos, loira, olhos azuis, alta, com uma blusa lilás com as alças do biquíni aparecendo, brinco de argola largo, (não tinha anel de namorado!(oba!!)), uma saia jeans, e um saltinho nos pés – lhe colocava em uma posição quase natural de sentir-se altiva perante todos. A verdade é que todos a admiravam, sentiam alguma coisa menos em si. As moças da loja por estarem muito longe daquilo, e eu por ser feio perante aquilo.

A estética oprime e deprime. Seduz e contorna o teu caminho, ainda que o percurso seja levado por uma corda que esteja a postos para te enforcar. Daí tudo passa num fôlego pequeno. Distante do que é verdadeiro. Situações plásticas que, por ora comovem e conturbam.

Enquanto a menina via o que gostava, eu a via de longe. Daí outros pensamentos, longe longe, iam surgindo. Sobretudo aqueles acerca dessa imposição da beleza. O que seria o espelho para aquele mito e para mim?! Que vivo tendo-o como inimigo. Conquanto a estética me deixara triste, supostamente por me sentir cego frente ao que não precisa de reflexo, mas que é por si só daquele momento. No fundo havia algum rasgo de tristeza naquele mito. Suas ações, sem os espelhos que antes inundavam meu olhar, eram vistas como bailar de uma boneca, um desejo de ser bem atendida, separando algumas peças. Por um instante já me preparava para vê-la de frente. Depois de estar apreciando suas silhuetas, veria o melhor, nitidamente o rosto e seus belos ceios. Mas a garota começou num vai e não-vai, entra e sai da loja, com longas miradas, alongando o pescoço para olhar os carros que vinham em sua direção, e era só um rua e loja, seus olhares eram inteiros – também era como se não olhasse para nada. Ou não existisse nada, além de objetos coloridos naquele interior e sua preocupação. Por mais feio que eu fosse, nem me olhou. Ou então estaria cego demasiado para não me dar conta. As suas voltas, com ar de quem espera alguém importante – levemente impassível, usava a calculadora, via as horas e dava voltas. Eram andares brancos em uma passarela que não existia.

O que começou a rodar em minha cabeça aventurou idéias distantes da situação do mito. Quiçá foi algo natural, ou necessário que sempre faça, para reafirmar uma perspicaz certeza de que aquilo é um mito e estava longe. Às vezes me coloco bem distante, ou melhor pequeno, e acabava afogado, sufocado no naquele gás, pois não era ar, de plasticidade. De outros mitos, quando me dou conta onde estou mergulhado, me encharco de tristezas e mal estar. Até disso sai produção, tortuosamente poética, mas como tal – melancólica.

O peso de tudo aquilo que havia persuadido meu pensamento só foi interrompido uma vez. A mãe da moça entrara na loja. Bem que não era nenhum namorado, até parecia não ter – a marcação pela aliança não havia. A mãe logo avaliou as peças; ‘quanto custa, como dá pra pagar e posso provar’. Outras perguntas padrão, dessa vez por parte da cliente. Essas frases prontas alfinetavam os dias em que ficava naquele recinto. Pior para as vendedoras, que nem mais devem sentir o mal que as acomete, para algumas aquelas mesmas frases podem lhes fazer companhia pelo resto da vida. É impassível!

A mãe deu algumas olhadas pela loja e saiu. Não era ostentativa como a filha. Tinha um ser muito simpático. Entrou dando boa tarde. E de pronto, após aquele momento o mito passara. Sabia que ainda estava ali porque o espaço ainda estava pressionado por ela. Ao final de meia hora de imensidão. Aquilo começou a sumir, saiu pela porta, ou pelos cantos, talvez pelo provador mesmo – nem vi. Fiquei buscando algo na internet, para completar algum lapso que estava tendo; numa esticada de pescoço para alongar, percebi que saiu e eu não vi. Passou ou foi mito, ou tornei uma imagem maior do que seu próprio merecimento ou verdade. Por certo que sim.


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é algo de janeiro 2008.

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