domingo, 9 de dezembro de 2007

Recortes do Flamboiã

Não acho que estou plagiando o que foi singular. A história contada por meu grande mestre-amigo-professor, e que reproduzirei logo mais, é o um constructo da oralidade mais marcante que se pode ouvir. Junção de lembranças familiares, letra do Roberto Carlos e conto de Rubem Braga. Grande seria se só isso fosse, mas é maior ainda. O saber impagável, as palavras colocadas e conduzidas com melodia na formação das frases, a perfeição da gramática, e sem mecânica, sem jargão, sem artifícios baratos dão a imensidão do que tive o privilégio de ouvir.


A conversa partiu de não sei onde, e terminou em lugar algum. O caminho é que significou, valeu por qualquer direção desvairada. Lembro que mirávamos fotos de escolas. A dificuldade dos estudos na palmatória, a escolinha do interior, a professora que pega na mão do guri para ensinar as letras, até o moderno uso de laptops em salas de aula. Imagens passavam e algo surgiu sobre Espírito Santo, depois Cachoeiro do Itapemirim. Agora recordo! A discussão, veio não sei de onde, mas brigávamos para saber se era ‘Cachoeira’ – minha opinião, ou ‘Cachoeiro’ do Itapemirim. Um diz isso outro diz aquilo, rolou críticas aos ônibus da empresa monopolizadora do mercado nacional de transporte[Itapemirim], e por fim, vi que eu estava errado: o certo é ‘Cachoeiro’.

Havia a bela música do Roberto Carlos, “Meu pequeno Cachoeiro (Cachoeiro do Itapimirim)”, que foi composta por Raul Sampaio.


Eu passo a vida recordando
de tudo quanto aí deixei
Cachoeiro, Cachoeiro
vim ao Rio de Janeiro
p'ra voltar e não voltei!

Mas te confesso na saudade
as dores que arranjei pra mim
pois todo o pranto destas mágoas
ainda irei juntar nas águas
do teu Itapemirim

Meu pequeno Cachoeiro
vivo só pensando em ti
ai que saudade dessas terras
entre as serras
doce Terra onde eu nascí!

Meu pequeno Cachoeiro
vivo só pensando em ti
ai que saudade dessas terras
entre as serras
doce Terra onde eu nascí!

Recordo a casa onde eu morava
o muro alto, o laranjal
meu flambuaiã na primavera
que bonito que ele era
dando sombra no quintal

A minha escola, a minha rua
os meus primeiros madrigais
ai como o pensamento voa
ao lembrar a Terra boa
coisas que não voltam mais!

Meu pequeno Cachoeiro
vivo só pensando em ti
ai que saudade dessas terras
entre as serras
doce Terra onde eu nascí

(Falando)

- Sabe meu Cachoeiro,
eu trouxe muita coisa de você
e todas essas coisas me fizeram saber crescer
e hoje eu me lembro de você,
me lembro e me sinto criança outra vez!

(Cantado, novamente)

Meu pequeno Cachoeiro
vivo só pensando em ti
ai que saudade dessas terras
entre as serras
doce Terra onde eu nascí!!!”

Decididamente lindo! Uma doçura de canção, com aliteração e tudo! E como não sabiamos cantar, nem eu nem meu amigo temos dotes para a música, a não ser apreciá-las com gosto. Outrossim a declamação foi comovente – um poema de saudades. Os comentários fartos de adjetivos, e as palavras fortes sendo repetidas. Restou a mais bela, aquela que é como o bordô para as cores, é o vinho merlot, aveludada. “Flamboiã”. Repetida diversas vezes, com diferentes entonações, um de cada vez, quase como criança aprendendo ‘ABC’.

O flamboiã deu frutos. Meu amigo começou a recordar-se do pai, e da mãe ainda viva. Contou que em sua casa, há mais de dez anos, havia um pé de flamboiã no quintal. Seguiu a história de um ponto já conhecido por mim, o pai chucro e orgulhoso – bom de coração, mas com a cisudez entre família, incontida. Ele e a mulher, brigados há 12 anos. O velho amava-a, não eram do tipo que se separariam, já viviam tão mutuamente dependentes que eram quase irmãos, a carência alheia se dava até nas brigas. Os filhos só não sabiam o que ocorria na hora de dormir, quando ‘se aguentavam’ juntos. Não dava ‘quebra-pau’ ferrado, era mais bate-boca, e a ‘cara amarrada’ do velho que era de ‘matar’. A calma da velha vinha no final do dia, depois de tanto serviço, ficar sentadinha sob a sombra do flamboiã. Era a reminiscência dos tempos em que vivia em Tijucas, mais próximo do meio rural, sem o zum-zum-zum da cidade média-Joinville. Eu realizei a senhora, de vestido jersei, com florzinhas, igual a dona Mariquinha ou a dona Rosa, minhas vizinhas do tempo em que eu morava na rua São Vicente, até os 9 anos. Deveria, e deve, pois viva está, ser um pouco gorda, mas saudável. Pensando em alguma coisa que lhe dava prazer, ou desejos ainda a ter, da vida calejada de mulher casada. A sombra, as folhas e a estrutura da árvore, era o abraço que quiçá não tinha, um colo gostoso. Oras, amava aquilo, inclusive, e, ao máximo o seu homem, e seus filhos, parentes, gato, cachorro, galinha, e também alguns clientes da padaria que possuiam. Ao passo que o flamboiã era seu reduto, seu cantinho.

O velho sabia disso. Talvez já introspectara um mal de joinvillense, fica contente, e depois se arrepende: quando vê que o outro está se ferrando. É como o ferreiro que queima o boi com maçarico e depois quer compartilhar a dor, mas precisa sempre estar por cima ‘da carne seca’. E para ‘fuder’ com a velha, atinjir o ápice da irritação oposta, mostrar a virilidade e a autonomia de um ‘macho’.... não é que o homem corta o pé de flamboiã! Tão lindo que era. Imagina, na primavera era um charme entre a vizinhança, chegava a ‘saborear as nossas vidas’, dizia meu amigo; aquela árvore era contagiante, tinha energia.

A indiferença era a representação do velho. O desespero, desamparo e ausência mergulhavam nos olhos da mulher. Um filho havia sido morto, o sentimento foi entre todos. Como disse meu amigo, ‘ele não cortou só um pedaço do pé de flamboiã, ele cortou um pedaço de nossas vidas, minha, dos meus irmãos e irmãs, sobretudo, de minha mãe’. O silêncio entre eles, dizia tudo. Não haveria palavras, som ou orquestra que fosse para ensaiar aqueles momentos de ‘falta’. E não era nem a angústia de traição, ou de uma existência doente, mas de um caminho sem volta. Provacada pelo mais besta rancor.

Depois daquilo, a mulher não mais dirigiu a palavra ao marido. O velho aprofundou a doença, e nunca mais melhorou, até a morte. Todos sofreram, foi uma perda maior, pois daqueles braços ainda estava o sangue do flamboiã. Era aquele espírito, mesmo o do rancor, que dava o toque rígido, um braço forte à casa.

Não faria mais sentido ter um pé de flamboiã, nunca mais...


No final da conversa, ainda nos coube procurar o que deu a dimensão maior para o acontecimento a meu amigo. Para seus irmãos aquele fato, mais um triste fato. Agora, a queda do flamboiã, em sua cabeça culta, abriu diversos livros, músicas, poesias, cinemas... de imediato, remetera o fato à música do Roberto, e ao conto de Rubem Braga. O escritor capixaba lembra do cajueiro, do pai:

O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.

Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente "tala") e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro, porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, "beijos", violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.

(Rubem Braga: Cajueiro. In: O Verão e as Mulheres. 5ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1991, p. 84-5.)


A conversa não terminou. Até ali, uma linda história que ouvi.


Luiz C Ramiro Jr – algum tempo de 2005

2 comentários:

Luiz Bicalho disse...

Ora quem diria
eu também adoro esta musica
Gostei do teu blog e de teus escritos

Unknown disse...

Quanto a música do Roberto Carlos é Meu pequeno cajueiro ou cachoeiro? Meu pai cantava Meu pq cajueiro. Qual será o certo ? Além disso um coral de uma pastoral com 40 vozes cantou meu pq cajueiro numa comemoração, entre uma multidão. Eu já ouvi e sei que o Roberto Carlos gravou Meu pequeno cachoeiro...