quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A vida é uma passada

CENA I

Passei. Da janela do ônibus mais uma daquelas cenas.
Linha 409, de Niterói para algum lugar de São Gonçalo.
Quente, um forno. Insuportável dia de muita algazarra na rua, gente pra todo lado, aquele suor seco, embalado pela música renitente que sai das caixas de som do ônibus. Para piorar, muito trânsito e janela emperrada.

Por todos os desapegos ao pensamento, provocados por esses tramites do dia-a-dia que nos fazem fugir de qualquer pensamento mais profundo, há coisas sensacionais a cada passada.
Do ônibus não se faz muito contato, mas se vê muito, como um espaço privilegiado em que somos mais olheiros que olhados. Quem não conhece o espaço, a passagem de ônibus é cara, mas contém uma emoção recheada de novidade.

O que passa é que avistei uma barbearia.
Especial.
Parecia mais uma borracharia, ou mecânica de carro velho.
Havia o jogo do bicho logo na entrada, exatamente no canto esquerdo - de quem olha pelo lado contrário do ônibus. Parecia ser tocada pelo senhor de barbas longas, uma coisa meio milenar, secular talvez. Creio que ele já planejava o jogo do bicho antes mesmo desse azar existir.
Não sei porque cargas d'água, e ainda não inventei razão - havia duas geladeiras azuis no fundo da barbearia. Velhas, sujas, e enferrujadas, mas do tipo "panela velha", devem estar inteironas por dentro. Quem sabe aquilo servia para arrego aos clientes, como um reservatório de cerveja, porque havia dois clientes - ou algo parecido, bebendo cerveja dentro da barbearia. E olhem que não havia bar ao lado, nem do outro lado da rua.
Havia duas cadeiras para a pessoa passar à circuncisão dos pelos do rosto.
Uma mais sovada do suor que a outra.
Sentado, o barbeiro. Sim. Ele estava descansando, e de pé, em sua frente estava um pedreiro. Argumentava coisas a respeito de uma reforma em um pé-de-meia qualquer.
O cheiro... de barba velha.
A barbearia do barbeiro que tomava cerveja enquanto trabalhava, fazia jogo do bixo nos intervalos e se girava na cadeira dos clientes.
Como uma criança aos 60 anos.
Foi um giro sensacional!


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CENA II

Na mesma linha de ônibus Niterói - São Gonçalo
Sábado, num meio-dia insuportável de quente.
Um vendedor de carnes,
que nada, um vendedor de espetinhos!
Sujeito gordo, sem camisa, shorts sujo,
muitas moscas,
muita carne gorda,
muita gordura na carne,
pingando
Churrasco assando.
Atrás: uma funerária.

2008.

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