Surgiu nebuloso, retumbando como gotas incessantes na pia vazia. Impertinente, e sem nenhuma claridade chegava, e aparecia na medida da profundidade do sono.
Não sei se o sono é o equivalente à nossa distância das coisas do mundo, dessas coisas do cotidiano que agente toca, vê, sente e reaje mecanicamente ou apenas instintivamente, realmente não sei. E não importa, pois o sono que leva ao sonho, nos leva a um sonho diferente daquele que agente sonha acordado, meditando e se revelando conscientemente. Esse sonho acordado eu acho que ainda não conheço, juro que quero chegar lá.
Por ora pensava nesse sonho de número 33 que Kashimin fora assaltado. 33 porque não preocupava-se com seus sonhos e anotava, um por um. Ainda que um sonho não deixa de ser um incômodo em seu cotidiano. Tudo aquilo que mexe com a linha regular das horas, daquilo que está programado em nossos passos e transgride todo esse limiar: incomoda. E não há dúvidas de que isso é parte da adaptação, de mais um homem cotidiano, com Kashimin ao seus pré-fabricados segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Ainda que tudo isso fora contra seu corpo, seus desejos de menino, não importava, a ordem estava dada, a cabeça arquitetada e um sonho à parte disso era realmente um empecilho. Ficava horrorizado consigo mesmo nos momentos de névoa, e dormindo, numa luta contra o sonho tentava acordar dentro dele,
tentava pegar o sujeito que pusera aquela fumaça em sua frente, que lhe deixara quase cego, num branco espetacular, prendia a respiraçáo, se batia, se esperneava, porque de jeito maneira queria sentir aquilo. Tinha medo de seus próprios anseios, medo de onde aquilo poderia levá-lo, como se todo o sonho fosse levar a um pesadelo, como se um sonho fosse um caminho desconhecido, porque dormido; perigoso e impossível, porque irreal e imóvel na medida do tempo mecânico; e sorrateiro, pois poderia te colocar em um labirinto onde jamais pudesses sair. Cair no buraco do tempo, onde não houvesse mais tempo, onde não houvesse qualquer ponteiro, pêndulo ou engrenagem de relógio a qual pudesse se segurar.
Vivia em uma prisão, mas vivia confortavelmente. O sonho era o temor de que chegasse a outro ponto, a outra margem, e que do outro lado houvesse algo tão espetacular, diferentemente do que imaginara, e quando pudera imaginar, porque a ordem do tempo não o deixava especular coisa alguma. Então tinha medo. E se o sonho fosse um vento que o arrastasse como
um barco à vela para essa outra margem, e lá tudo aquilo que ele pensara, inclusive que pensara da outra margem fosse uma mentira, do outro lado a coisa era totalmente diferente. Poderia ser algo bom. Contudo antes estar na seguridade dos seus dias, menos perigoso. Na sua vidinha, de idas e vindas, do trabalho pra casa, da casa pro supermercado, do bar pra praça logo na esquina, da pipoca do seu Pinguim pra pizza que chegava em casa, do relógio marcando dez horas e onze minutos, o tempo certo de ir dormir. Ainda tinha o acerto no despertador às sete, porque às sete horas de segunda feira devia estar de pé, pronto para dar parte do seu sangue às 8 horas diárias na engrenagem que move a grande roda, que gira, gira e gira, e todos ficam embasbacados, no mesmo lugar. "Roda gigante, roda gigante, um instante sorrateiro pode ser teu fim, mas prendes tão forte teus membros, que mesmo com alma, são pregados junto aos teus parafusos e porcas".
Nem mesmo compreender onde estava Kashimin conseguia. Nem tentava. Só tinha um objetivo, não sonhar para não se incomodar. Isso atrapalharia seu caminhar, o dinheiro que precisava salvar, os investimentos que tinha, a carreira a conquistar, o currículum que precisava engrandescer. E tudo isso pra quê? Nem queria responder. Primeiro porque não havia espaço
para esses estálos e muito menos tempo. Segundo pela inutilidade, a sua rotina seguia no plano das coisas úteis, do monetariamente trocável, do rápido e rasteiro, mesmo que que passando a perna no outro, para que do outro a coisa fosse tirada e pra mim restasse algum ganho, e assim seguindo acumulando, acumulando e inflando. Por fim, não sonhar para não sair do páreo duro dos homens de negócio, pensar além do seu espaço, do matematicamente calculável não valia a pena, não renderia coisa alguma. As vezes compreendia seu raciocínio. Pois ganhava o que via, andava no que era o seu chão. Dentro daquele espectro de coisinhas minúsculas, sem importància - como comprar pão, leite, toda a comida, ir ao cinema, ao trabalho, jogar baralho,
escovar os dentes, ir ao banheiro, tomar banho e comer - num amontoado só se tornava toda a sua vida, e no mais além disso, quando havia tempo, era algum afago carinhoso aos seus familiares próximos, ou algum afago sexual que esquentasse o membro virial e juntando dois corpos a 38 graus durante mais ou menos 15 minutos, não mais para não cansar e atrapalhar o
dia seguinte de trabalho, ainda que fosse numa noite de sábado, com domingo livre.
Com pesar se sentia confortável nos seus limites. Jogara pra si pontos e medidas a alcançar, todas elas no círculo das coisas monetariamente cambiáveis, como ter uma casa, um carro, melhorar o CV, alcançar melhores posições no que fazia,
entre outras coisas, ou coisinhas. Algo além, que não chegava a sonho, mas desejo de poder, viera da revista Business and Finance, que sempre pegava do lixo no hotel em que trabalhava. Era o tipo de revista "homens de negócio", por mais que não fosse só homens, claro, mas hoje quando mostram uma mulher de sucesso e de negócios, apresentam como se fosse
homem, ou uma mulher masculinizada, macha. Pois bem, Kashimin no caminho de casa ficava folheando a revista, vendo e revendo, nem lendo, mas passando a vista, sobre aqueles homens com belos paletós e gravatas, e todo uma cara bem produzida, não por maquiagem, mas pelo photoshop. A silhueta do corpo muito bem desenhada, sem rugas e sem marca de cansaço, ao
mesmo tempo com muito sucesso. Belo exemplo para Kashimin, um homem do cotidiano, e se a revista era do cotidiano, de homens do cotidiano, então ele também poderia ser um "homem cotidiano de negócios e com sucesso", sem chegar ao ponto dessa coisa chata, transgressora e perigosa chamada sonho, apenas seguindo os passos. Um dia até a revista ensinou a qualquer um
como ser milhionário em 10 anos começando com 100 reais guardados por mês. Kashimin está a dois seguindo a regra à risca, com algum sucesso e muito sacrifício, por mais que o banco em que tanto deposita confiança vive lhe roubando centavinhos,
que sem tempo de reclamar, acabam furando o prognóstico de se tornar milhionário. Apaga da cabeça qualquer desconfiança, e fica bravo quando alguém rouba o banco, pois pensa que tudo que está lá é dos clientes, como ele, e que ninguém pode mexer em seu dinheiro, só os banqueiros, "homens engravatados cotidianos de negócios", e de sucesso. Esse tipo de gente são as bolas, que subverte ao usar roubo como protesto, os que ficam dentro do rolamento que gira toda a engrenagem da roda gigante, o tipo de coisa que só roda e roda, e come muita gordura para continuar rolando.
O sujeito
mal-amado, que odiava sonhar buscava até remédios em farmácias. Quando não se metia a outros químicos mais perigosos.
Sem se dar conta de onde estava, ainda tomando remédios, quem nem mesmo existiam para seu controle, chegou a picos de delírio. Acordado. Viu um dia na resvista que um homem de negócio fazia "yoga", coisa oriental, desimportante, mas se um "homem de negócios" fazia, então poderia ser algo lucratívo a longo prazo. Decidiu testar. Mas não deu certo, fixou os olhos na calça de uma mulher, não pelas curvas belas e a bunda gostosa, isso um pouco, muito mais porque a estampa era uma mescla de relógios e balanças, aquilo o pusera em um outro transe, fora do que professora de yoga dizia, como se o recolocasse em seu plano, e começasse a contar as horas para voltar ao seu correto cotidiano e pesasse se realmente valia a pena
perder seu tempo ali, se se não fosse melhor primeiro tornar-se um homem de negócios, gordo e redondo, e depois começasse a fazer yoga, nem que fosse para dizer na revista que faz alguma coisa "diferente". A idéia e eficiência a curto prazo fez com que a sessão não durasse uma hora, e ele pedisse o dinheiro de volta das aulas que pagara adiantadamente por duas semanas,
para ganhar o desconto. Brigou para não pagar a multa e saiu contente por não ter pago.
Era cisudo, Kashimin sempre andava de cabeça baixa, certeiro no caminho, preciso nos passos e constante no seu tempo. Não abria espaço para outros ao redor, era como cavalo com aquele cabresto nos olhos, sempre na sua direção, sem olhar para os lados. Seguia e seguia. De repente um tropeço, qualquer coisa em seu caminho, mas não uma pedra, uma pessoa com as pernas na
calçada e o corpo arrastado pedindo esmola ou uma criança indo pra escola. Dessa vez era algo que o fez desmaiar, uma fumaça branca, a mesma dos sonhos dormidos, mas essa vinda de dentro de sua cabeça, enquanto estava forte pensando em uma flor, um raro momento em que pensara em algo belo, para dar à sua esposa, e aquilo despertou um jardim, e um jardim que começara branco, no meio da calçada, cheio de gente, como pudera acessar um jardim? Como se perguntassemos como e porquê um trabalhador deve ou pode sonhar? Haveria cabimento para aquele relampejar de rosas, orquídeas, jasmins, hortências, azaléias e margaridas em sua frente, e do mesmo modo um apito grave em seu ouvido, um trem ou um
barco chegando. Não, um barco não, num porto que anda, preparado para levá-lo a outra dimensão, sem tempo, sem memória, sem seu mesmo movimento. A coisa que mais temia ia acontecendo, no meio do profundo buraco que cavara, parecia que estava tão pesado em suas contagens, que se tornara, não protegido contra as interrupções sentimentais ou de outras ordens, mas apenas extremamente vulnerável, porque no limite. Jogado ao preciso tempo de descançar, não aguentava mais tanta pressão, mas resistia, daí numa passagem, na passarela onde tudo acontecia, fora assaltado, acordado, por um jato de sonho,
exalado por ninguém menos que ele próprio, sua imaginação e sua cabeça...
Sem se dar conta sempre fora roubado, não só pelas contas do banco, ou pelo trabalho feito e não recebido, pelas longas horas extras que fazia e jamais fora remunerado, mas sim roubado, desde pequenino, pelo que via. Os produtos, as marcas, as propagandas, iam ocupando um espaço preciso em sua memória, coisas que não regressavam mais, e sufocando, quaisquer
desejo, quaisquer momento de respiro limpo. Não à toa não conseguia nem mesmo pensar 5 minutos em branco para meditar e fazer yoga ou qualquer coisa do tipo, sempre vinha à tona quando pensavam em yoga, a propaganda da margarina, ou do yogurte que era bom e barato, ao mesmo tempo limpador de intestino. Sempre nessa ordem. Ainda assim, ainda assim,
nessa compressão, o sonho aparecia, desvirtuava e fazia mistério.
Decididamente não há contrôle para o sonho, por isso jamais conseguia ser máquina, jamais conseguia ser peão de si mesmo, Ninguém rouba a si mesmo, por mais que o sistema te rouba. Incrível como algo auto-conscientemente avassalador contra si fica como uma torneira aberta, um sangue jorrando e uma ferida incurável, assim se vive e assim vivemos, colocando e
recolcando esparadrapos. Se vive doente, e plasticamente finjindo estar bem, sorrindo, se maquiando e se vestindo para a pretenção de estar e ser como "homem de negócio", nessas vestimentas pretas de velório, nessa cara amarrada, em tudo e pra tudo que for contrário ao colorido dos sonhos. Ainda assim, contra tudo isso, há o barulho, há algo que embaralha
nossa mente, e nos desfaz, descontrola e descostura aquilo que fora tão certamente apertado, a janela que abriria espaço e daria um respiro pregada com parafusos, e estoura em certas horas. Não há jeito, não controlamos nem nosso corpo, nem nossa mente, muito menos nossos sonhos.
Ainda não sei do que se fez do sonho de Kashimin, depois daquele andar e de uma nuvem branca aparecer, ele caiu. Ninguém parou para vê-lo, ninguém tinha tempo. De olhos abertos, arregalados para cima, olhando para o céu entre brancos, cinzas e azuis celestes, sonhava acordado. Não sei se morto, não sei se vivo, mas no meio do redemoinho, como no meio da roda
gigante, descera, pulara, estava voando, longe longe. Não sei para onde foi, se foi para algum lugar, se ficou louco, se saiu de si ou se perdera o rumo. Perguntei mais tarde para sua mulher Irina, para o seu Pinguim da pipoca, para seu Pedro do bar e para dom Ramon da padaria, jamais viram Kashimin novamente, sumira. Vôou tão alto e sem direção que ainda não foi encontrado, pior de tudo para as coisas com direção do cotidiano é que ele não se encontrou. E nesse mundo
quem não se encontra, quem não toma jeito e rumo, não é encontrado, alguém só é encontrado na mesma linha do trem, nas estações da vida, não perdido. Todos os perdidos tem a sina da solidão, é o preço que paga os sonhadores. Pelo jeito Kashiimin fora escolhido pelo reino dos sonhos para se tornar um sonhador acordado e sem direção.
2009.
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