
O cobre é o metal de maior condutibilidade elétrica depois da prata e está em uma infinidade de objetos da vida moderna. Fios, computadores, chips, televisão, rádio, celular, brinquedos, aquecedor, telefone, enfeites, moedas e na estátua do Buda.
Na tarde de domingo, minguado domingo, tempo cerrado e apático. Andando na Paulista, depois de visitar o que mais queria ver de São Paulo, além de meus amigos – o MASP, dei uma passada para ver uma exposição sobre o ‘cobre’. Estava acontecendo naquele prédio marcante da rua mais importante da capital paulista, uma das mais ricas da América Latina, onde a burguesada tem parte de seus escritórios. O prédio do SESC era magnífico; mas até às nove horas só a exposição funcionando. Era o tipo de coisa que estava lá para os seguranças cumprirem hora – poucos transeuntes compareciam. Também, tudo escondido e mal divulgado. Contudo o material era de qualidade e atraia um ou outro para dentro daquele subsolo.
Um problema das exposições é a situação claustrofóbica provocada pelo excesso de objetos. São tantos que confundem: muitas vezes a disposição das obras privilegia a quantidade perante o curto espaço, ao invés de dar uma resma, pelo ao menos, de espaço para o respiro do pensamento e da reflexão do tema da exposição. Mas não, têm que ter muita coisa, interatividade, televisão, vídeo, imagem, gráfico, tabela, foto, letreiro, propaganda, e tudo para não parecer estático – como se quisesse aprisionar, ou segurar o visitante. Pode-se temer que esse seja o ônus a pagar por aqueles organizadores que querem ver o trabalho ser visto e propalado pela imprensa e pelo público em geral. Ou que a situação de desgosto rápido pelas coisas se dê pelo giro rápido que são as visitas e olhares das pessoas, mesmo daquelas que se deliciam em um museu ou evento cultural; a ponto de ser opressiva ou degenerada a tentativa de prender o que corre, daí tentar tornar as coisas com a mesma rapidez com que o público transita, ainda mais naquela cidade.
As coisas que marcam a vida social, qualquer totem, símbolo ou coisa do tipo tem o registro da situação estática. É algo que ‘está lá’, como um ponto seguro de entendimento sobre um dado, ou intriga, questionamento sobre o mesmo. Nem sempre revela, pode mascarar ou deliberadamente mentir. Remetem ao fixo que nos faz parar. E um objeto bem disposto numa exposição pode fazer o sujeito que percorre(mais corre que olha) os corredores, parar. E foi isso que me ocorreu quando vi aquele enorme Buda de bronze.
Antes de a impressão e a situação de estalo se dar pela gigantesa do que vi, já havia visto outras coisas iguais, mas sem dimensão. Poderia ser grande, mas o lugar, na hora, e da maneira como me enfrentou – me fez parar. Quase esbarrei, não ocorreu: se fosse eu cairia, seria vitimado, não cúmplice de um acidente, mas um acidentado culpado. Cairia eu, Buda e as moedas. Os dinheirinhos, nem todos de cobre forravam o colo daquele, que quando criança era um ‘senhor chinês’ – mesmo não sabendo se era exatamente homem.
Na época, era minha tentação ter aquelas moedas que ele recebia. Nunca soube para onde iam. Por mais miseráveis que fossem as doações, no geral dava alguns trocados e não era doação à toa. Até eu, ao ver outro jogando uma moedinha de cinco centavos nas mãos do ‘senhor chinês’, tinha vontade de fazer o mesmo, participar daquela fé coletiva, sem sentido e chamativa.
A tentação da época e do momento em que estava boquiaberto vendo aquela exposição, lembrava os tempos da Dindinha. Nome que questionava, mas sempre esquecia o porquê de tal uso. Quando adolescente percebi que era bastante usado na Bahia. Pelo dicionário é “m.q. madrinha ('mulher que apresenta alguém para o batismo')” e também é sinônimo para cachaça. O sentido era o de afeto, respeito e servia muito bem para a criançada. Não conseguia chamar a minha avó de vovó – era muito velha para isso, e nem de vó – pois faltava intimidade para tal. Assim como o Buda de bronze no museu, minha ‘avó’, por parte de mãe, era uma estátua em sua poltrona, vendo o Silvio Santos em sua eterna letalidade, aos domingos e todos os dias de visita (parecia que aquele sorriso amarelo da televisão sempre estava lá, era sua companhia estática). Ela era o totem, o símbolo da casa da tia Fátima. O nome já diz como era querida, doava a vida às visitas da parentada.
Dindinha recebia as bênçãos de todos e falava pouco. Gradativamente ia diminuindo o volume da voz e a quantidade de palavras. Para quem teve vinte filhos, os gemidos, por certo, foram tantos que nem de dor tinha vontade de reclamar. Era paciente e passiva. Com o Buda, em sua frente, ao lado da televisão recebendo as moedinhas de quem vazia a visita, inclusive das crianças; a Dona Laudelina(para os que não eram da família, ou os maridos das filhas, mais recatados e formalistas) dava as mãos para as bênçãos e continuava seu olhar sobre o dinossauro Silvio Santos.
A família inteira era católica. O crente era motivo de chacota ou temor. Como algo dos desvirtuados. A mudança de religião era algo desestruturador daquele vínculo familiar. Não só se dava conta do perigo que era se misturar com tal gente, como aderir a outras vinculações fora do que o padre dizia. Mesmo que todos soubessem que o padre dava seus ‘pulinhos’ nas boites da cidade, e quando rezava bem o ‘padre nosso’, estava turbinado com a manguaça nos cornos – motivo de forte irritação das freirinhas, dando empolgação e divertimento para os que assistiam à missa. Essa bagunça parecia ser querida. Era comentário e algum motivo de sorriso para gente do cercado e quadradesco bairro de Joinville. O que ocorre é que sempre pensava no padre quando via aqueles que visitavam a casa da tia Fátima, por causa da Dindinha, e davam alguma moedinha para o Buda, antes ou depois da benção para a ‘vó’.Um dia perguntei para a tia Fátima o que era aquela estátua e pra quê ficar dando moeda para ele. O maior dos enigmas foi desvelado, mesmo que eu ainda houvesse um fundo de mistério. Eu já sabia que a estátuazinha se chamava Buda; mas tia Fátima disse que aquilo era pra dar sorte e as moedas eram retiradas quando o colo do Buda ficava muito cheio. Eu não compreendia que Buda era o centro de outra religião, que não a nossa; mas valia a presença daquele símbolo, pois a sorte em ganhar dinheiro era algo necessário na labuta difícil do dia-a-dia. A fé estava enredada na prosperidade. Era a benção para manter a velha viva, e uma comutação de trocas de falares, canastreares e almoçares nos domingos entre a parentada as voltas desse gesto; e a moedinha para o Buda, deixando acesa a fé em tornar menos custoso e mais gostoso os almoços de família.
Na tarde de domingo, minguado domingo, tempo cerrado e apático. Andando na Paulista, depois de visitar o que mais queria ver de São Paulo, além de meus amigos – o MASP, dei uma passada para ver uma exposição sobre o ‘cobre’. Estava acontecendo naquele prédio marcante da rua mais importante da capital paulista, uma das mais ricas da América Latina, onde a burguesada tem parte de seus escritórios. O prédio do SESC era magnífico; mas até às nove horas só a exposição funcionando. Era o tipo de coisa que estava lá para os seguranças cumprirem hora – poucos transeuntes compareciam. Também, tudo escondido e mal divulgado. Contudo o material era de qualidade e atraia um ou outro para dentro daquele subsolo.
Um problema das exposições é a situação claustrofóbica provocada pelo excesso de objetos. São tantos que confundem: muitas vezes a disposição das obras privilegia a quantidade perante o curto espaço, ao invés de dar uma resma, pelo ao menos, de espaço para o respiro do pensamento e da reflexão do tema da exposição. Mas não, têm que ter muita coisa, interatividade, televisão, vídeo, imagem, gráfico, tabela, foto, letreiro, propaganda, e tudo para não parecer estático – como se quisesse aprisionar, ou segurar o visitante. Pode-se temer que esse seja o ônus a pagar por aqueles organizadores que querem ver o trabalho ser visto e propalado pela imprensa e pelo público em geral. Ou que a situação de desgosto rápido pelas coisas se dê pelo giro rápido que são as visitas e olhares das pessoas, mesmo daquelas que se deliciam em um museu ou evento cultural; a ponto de ser opressiva ou degenerada a tentativa de prender o que corre, daí tentar tornar as coisas com a mesma rapidez com que o público transita, ainda mais naquela cidade.
As coisas que marcam a vida social, qualquer totem, símbolo ou coisa do tipo tem o registro da situação estática. É algo que ‘está lá’, como um ponto seguro de entendimento sobre um dado, ou intriga, questionamento sobre o mesmo. Nem sempre revela, pode mascarar ou deliberadamente mentir. Remetem ao fixo que nos faz parar. E um objeto bem disposto numa exposição pode fazer o sujeito que percorre(mais corre que olha) os corredores, parar. E foi isso que me ocorreu quando vi aquele enorme Buda de bronze.
Antes de a impressão e a situação de estalo se dar pela gigantesa do que vi, já havia visto outras coisas iguais, mas sem dimensão. Poderia ser grande, mas o lugar, na hora, e da maneira como me enfrentou – me fez parar. Quase esbarrei, não ocorreu: se fosse eu cairia, seria vitimado, não cúmplice de um acidente, mas um acidentado culpado. Cairia eu, Buda e as moedas. Os dinheirinhos, nem todos de cobre forravam o colo daquele, que quando criança era um ‘senhor chinês’ – mesmo não sabendo se era exatamente homem.
Na época, era minha tentação ter aquelas moedas que ele recebia. Nunca soube para onde iam. Por mais miseráveis que fossem as doações, no geral dava alguns trocados e não era doação à toa. Até eu, ao ver outro jogando uma moedinha de cinco centavos nas mãos do ‘senhor chinês’, tinha vontade de fazer o mesmo, participar daquela fé coletiva, sem sentido e chamativa.
A tentação da época e do momento em que estava boquiaberto vendo aquela exposição, lembrava os tempos da Dindinha. Nome que questionava, mas sempre esquecia o porquê de tal uso. Quando adolescente percebi que era bastante usado na Bahia. Pelo dicionário é “m.q. madrinha ('mulher que apresenta alguém para o batismo')” e também é sinônimo para cachaça. O sentido era o de afeto, respeito e servia muito bem para a criançada. Não conseguia chamar a minha avó de vovó – era muito velha para isso, e nem de vó – pois faltava intimidade para tal. Assim como o Buda de bronze no museu, minha ‘avó’, por parte de mãe, era uma estátua em sua poltrona, vendo o Silvio Santos em sua eterna letalidade, aos domingos e todos os dias de visita (parecia que aquele sorriso amarelo da televisão sempre estava lá, era sua companhia estática). Ela era o totem, o símbolo da casa da tia Fátima. O nome já diz como era querida, doava a vida às visitas da parentada.
Dindinha recebia as bênçãos de todos e falava pouco. Gradativamente ia diminuindo o volume da voz e a quantidade de palavras. Para quem teve vinte filhos, os gemidos, por certo, foram tantos que nem de dor tinha vontade de reclamar. Era paciente e passiva. Com o Buda, em sua frente, ao lado da televisão recebendo as moedinhas de quem vazia a visita, inclusive das crianças; a Dona Laudelina(para os que não eram da família, ou os maridos das filhas, mais recatados e formalistas) dava as mãos para as bênçãos e continuava seu olhar sobre o dinossauro Silvio Santos.
A família inteira era católica. O crente era motivo de chacota ou temor. Como algo dos desvirtuados. A mudança de religião era algo desestruturador daquele vínculo familiar. Não só se dava conta do perigo que era se misturar com tal gente, como aderir a outras vinculações fora do que o padre dizia. Mesmo que todos soubessem que o padre dava seus ‘pulinhos’ nas boites da cidade, e quando rezava bem o ‘padre nosso’, estava turbinado com a manguaça nos cornos – motivo de forte irritação das freirinhas, dando empolgação e divertimento para os que assistiam à missa. Essa bagunça parecia ser querida. Era comentário e algum motivo de sorriso para gente do cercado e quadradesco bairro de Joinville. O que ocorre é que sempre pensava no padre quando via aqueles que visitavam a casa da tia Fátima, por causa da Dindinha, e davam alguma moedinha para o Buda, antes ou depois da benção para a ‘vó’.Um dia perguntei para a tia Fátima o que era aquela estátua e pra quê ficar dando moeda para ele. O maior dos enigmas foi desvelado, mesmo que eu ainda houvesse um fundo de mistério. Eu já sabia que a estátuazinha se chamava Buda; mas tia Fátima disse que aquilo era pra dar sorte e as moedas eram retiradas quando o colo do Buda ficava muito cheio. Eu não compreendia que Buda era o centro de outra religião, que não a nossa; mas valia a presença daquele símbolo, pois a sorte em ganhar dinheiro era algo necessário na labuta difícil do dia-a-dia. A fé estava enredada na prosperidade. Era a benção para manter a velha viva, e uma comutação de trocas de falares, canastreares e almoçares nos domingos entre a parentada as voltas desse gesto; e a moedinha para o Buda, deixando acesa a fé em tornar menos custoso e mais gostoso os almoços de família.
Um comentário:
gostei do texto pq vc fala sobre voce, e isso sempre da um carater especial a qualquer relato. tambem acho o masp um museu sensacional, agora nao entendo muito bem essa ideia de ter toda a arte junta num museu, num espaco cercado e vigiado. talvez ia ser muito melhor que estivesse espalhada, em qualquer lugar, sem necessidade de guardas, etc...talvez numa soc anarquica.
depois vc misturou um relato pessoal, com uma estoria da infancia, o que deu uma combinacao interessante.
como leitor acho que faltou algo de acao... é que ja sabe, talvez essa temporada no inferno americano me mal acostumou e ja nao consigo seguir relatos mais pausados. mas seria interessante manter os fatos do relato e modificar a forma de narrar os acontecimentos.
Postar um comentário