quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Da atual condição das mulheres

Sai dum casarão de Botafogo, desses antigos do século XIX, como aqueles citados por Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos. Vislumbrado com aquelas riquezas de séculos passados, especialmente a dedicação que se tinha com a arte e os estudos. Estava altivo, respirando um pouco daquele ar da Casa de Rui Barbosa. Eis que olho o relógio e me dou conta do atraso.
Deixei a casa sem apreciar todo aquele requinte.

O dia no Rio estava lindo, isso torna as pessoas mais vivas, com um sorriso fácil e disposto. As mulheres então, não só com o decote ou mal cobertas por aqueles vestidos que atiçam o apetite animalesco, formam um conjunto muito charmoso. Hoje estão muito atrevidas, na inocência acadêmica, como toupeiras míopes, acabamos por passar batido frente a tantas cenas e até oportunidades à nossa vista.

Na saída ia observando a moça que acabara de entrar no terreno. Jurava que ela estava perdida. Na maldade, quase torcia pela perdição da mulher. Parecia ate européia, como tantas que avistamos agora pelo Rio, tão na moda.
Dava passos curtos para aproveitar todos os movimentos cinematográficos, daquele belo conjunto espaço-mulher-jardim-sol-azul. Observava-a passando pelo portão, a primeira pessoa que viu, passou, mas voltou e perguntou algo. Eu já andava pensando em auxiliá-la de algum modo, inconscientemente algo mais, inclusive.

O moço o qual ela pedira algo, não suplantou o desejo daquela mulher, que eu não sei o que era - exatamente. Mas sozinha estava.

Desconsolada, desamparada, solta, livre e aberta, realizada com aquele olhar de procura, pensei que seu fito fosse encontrar a sala onde estava ocorrendo um Seminário Internacional sobre cidades. Na minha ansiedade carente, aligeirei-me para lhe perguntar, com o dedo indicador levemente levantado, tendo os braços acompanhando o movimento da pergunta - exclamativa e interrogativa, de supetão:

- Você precisa de alguma ajuda?

Antes da resposta subiram-se dois segundos no ar, perfazendo em abismo entre minha oferta e os desejos dela. Com um olhar questionou a minha ousadia, mas aceitou. E nesse precipício que se formara, ainda que fosse fundo, era possível pular, se o recurso tivesse, pois veio a resposta:

- Não, não... Quero fogo! Você tem fogo?...

Respondi com o silencio, nem sei ao certo se dissera o "não", instantaneamente percebi a condição atual das mulheres, naquela resposta de uma moca linda, moderna, solteira e "que fuma", ou seja, muito sensual.


Da ajuda não carecia. Do fogo pedia. E achei eu que não tivesse. Silenciei. Só muito mais tarde, abri o zíper da mochila, em um canto esquecido e vi... puxa, e não é que me sobrava uma caixinha de fósforos aqui, eu que nem fumo. Faltou-me a memória, sobrou-me o modo acanhado.

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