“Na arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, há um capítulo , o quarto, que tem como ementa esta singular afirmação: “Como os maiores ladrões são os que têm pó ofício livrar-nos de outros ladrões””(27)
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“A “Bruzundanga” fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos. Sua missão é, portanto, como a dos “maiores” de Arte, livrar-nos dos outros, naturalmente menores”(27)
II – A Nobreza da Bruzundanga
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“A nobreza da Bruzundanga se divide em dois grandes ramos. Talqualmente como na França de outros tempos, em que havia a nobreza de Toga e a de Espada, na Bruzundanga existe a nobreza doutoral e uma outra que, por falta de nome mais adequado, eu chamarei de palpite... 56
“A formatura é dispendiosa e demorada, de modo que os pobres, inteiramente pobres, isto é, sem fortuna e relações, poucas vezes podem alcançá-la.
Cousa curiosa! O que mete medo aos candidatos à nobreza doutoral, não são os exames da escola superior; são os exames preliminares, aqueles das matrículas que constituem o nosso curso secundário...
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O nobre doutor tem prisão especial, mesmo em se tratando dos mais repugnantes crimes. Ele não pode se preso como qualquer do povo. Os regulamentos rezam isto, apesar da Constituição, etc., etc. 57
XX Uma Província
“As províncias da República da Bruzundanga, que são dezoito ou vinte, gozam, de acordo com a carta constitucional daquele país, da mais ampla autonomia, até ponto de serem, sob certos aspectos quase como países independentes.
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Das províncias da Bruzundanga, aquela que é tida por modelar, por exemplar, é a província do Kaphet. Não há viajante que lá aporte, a quem logo não digam: vá ver Kaphet, aquilo sim! Aquilo é a jóia da Bruzundanga.”139
Sobre os sábios (a desenvolver)
É sábio, na Bruzundanga, aquele que cita mais autores estrangeiros; e quanto mais de país desconhecido, mais sábio é. Não é, como se podia crer, aquele que assimilou o saber anterior e concorre para aumentá-lo com os seus trabalhos individuais. Não é esse o conceito de sábio que se tem em tal país.
Sábio, é aquele que escreve livros com as opiniões dos outros.
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Em toda a parte, os sábios, de qualquer natureza, são homens de recursos medianos, modestos, retraídos, pouco mundanos, mesmo quando ricos. Na Bruzundanga, não, os sábios são nabados, têm carros e automóveis de luxo, palácios; freqüentam teatros caros, durante temporadas completas; dão festas suntuosas nos seus hotéis, etc, etc.” 168-169
Os Bruzundangas, Lima Barreto, 1923.
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