sexta-feira, 19 de setembro de 2008

INTERESSES PRIVADOS, SEM RODEIOS!

RECUPERAMOS UMA ENTREVISTA DO REITOR[DONO] DA UNESA - Universidade Estácio de Sá, UMA DAS MAIORES NO ENSINO SUPERIOR PRIVADO DO PAÍS. A VOSSA MAGNIFICIÊNCIA SR. João Uchôa Cavalcanti Netto DEIXA CLARO SOBRE SEUS INTERESSES QUANTO A EDUCAÇÃO NO PAÍS: "Eu estou interessado é na Estácio"".

Antes de mais nada é bom deixar claro o seguinte: no sistema em que vivemos hoje, "democracia" capitalista, não é errado a mera representação de interesses privados por parte do reitor da Estácio. Pois ele é um capitalista, quer lucro, e quer desenvolver sua empresa. Até aí tudo bem para o que vivemos hoje, se ele não tem comprometimento algum com a educação, cidadania, construção de um projeto de país.
Mas mesmo dentro dessa lógica de sistema[que já é errada], é irracional que o Estado - ente público, que tem um compromisso com o PÚBLICO, que deve ter suas forças voltadas para atender aos interesses da população - deva atender a qualquer suplício desse sujeito ou de qualquer outro em nome de sua entidade privada. É incabível que uma entidade privada receba dinheiro público, que deveria servir para ampliar e melhorar a universidade pública, inclusive para que as vagas no ensino público superior não dessem o ônus ao jovem[sobretudo aquele que já está no mercado de trabalho] de se afogar com as mensalidades.
"Verba pública para a escola pública". Isso não é corporativismo. É simplesmente atender a uma lógica: por quê não criar vagas, ou construir universidades sem ter que passar pela iniciativa privada!?
1º- o governo não só terceiriza o próprio interesse público, como provoca a destruição do que já se construiu, como a destruição das escolas e universidades públicas hoje.
Ora, um dos maiores mitos ou mentiras das últimas décadas é a de que 'fica mais barato terceirizar'. Além de achar que um empresário da educação irá se responsabilizar por uma necessidade geral, financia esse ente privado em troca do investimento no ensino público. O exemplo mais claro disso é o PROUNI - programa do governo federal que visa comprar vagas no ensino privado, ao invés de usar esse dinheiro para ampliar a universidade pública.
2º Outro desses mitos, ou mentira propriamente dita, é a de que privatizar e/ou terceirizar é melhor e mais barato do que o sistema público. Isso se provou falacioso de diversos modos. Indicamos esse artigo que dá uma abordagem sobre isso: (http://www.tau.ac.il/eial/I_1/shidlo.htm).

Essa entrevista vem à calhar, também num momento em que o movimento estudantil nas universidades federais vem discutindo o REUNI. O programa de reestruturação da universidade brasileira, decreto do governo Lula, vem diretamente no sentido de ampliar a universidade, mas não com melhoria ou até manutenção nos graus de qualidade atual, mas massificando, e além disso tira um bem precioso da universidade - a pesquisa. Quanto a isso vale a pena ler o comentário do dono da Estácio de Sá sobre o assunto...

Do Jornal Folha Dirigida(RJ), em 2001:

Fundador da Universidade ESTÁCIO de Sá, João Uchôa Cavalcanti Netto aborda COM FRANQUEZA temas polêmicos e diz que A ignorância pode ser uma opção que tem de ser respeitada.

Os conceitos sobre educação do fundador da universidade que mais cresceu no país nas últimas três décadas são, no mínimo, polêmicos. Juiz de formação e discípulo do banqueiro Amador Aguiar, de quem foi office boy e "pajem", João Uchôa Cavalcanti Netto, 68 anos, acha que a ignorância é um opção que deve ser respeitada e que a pesquisa é uma "inutilidade pomposa". Entretanto, está à frente de uma universidade que tem 90 mil alunos e 30 unidades espalhadas pelo país, número que, em março de 2002, estará defasado, se o projeto de implantação de uma filial da Estácio de Sá além das fronteiras brasileiras obtiver êxito.

Quem tem formação apurada não chega ao topo do comando de sua universidade, uma gigante do ensino fundada em 1970 com 160 alunos de Direito e que, hoje, abriga uma comunidade de cerca de 150 mil pessoas, entre alunos, funcionários e professores. "Na cúpula da Estácio quem tem mestrado e doutorado não entra. Isso é uma regra". E esta é apenas uma, das muitas tiradas de impacto de Uchôa, um empresário que atribui o êxito à sorte e que, sem rodeios, admite seu desinteresse pela educação, pela cidadania e pelo Brasil. "Eu estou interessado é na Estácio".

FOLHA DIRIGIDA : O MEC inaugurou sistemas de avaliação nos dois últimos governos que têm dado uma nova diretriz, novas referências para o ensino superior. Qual o impacto do Provão sobre as universidades?

JOÃO UCHÔA : Eu acho que o Provão é uma avaliação que precisava ser feita. Alguém precisava avaliar. Eles escolheram o Provão. É o melhor critério? Se não for, com o tempo vai ser aperfeiçoado. Agora, que não existia critério nenhum de aferição, não existia, e agora existe, o que é muito bom. A melhor coisa que o setor privado pode querer é ser sempre avaliado pelo setor público, pois quando o MEC avalia o nosso trabalho, ele está nos prestando um serviço, que é o de fiscalização. Eu preciso de um fiscal, o MEC é de graça, e ele está fiscalizando para mim. É o melhor critério? Não, deve haver 10 mil critérios melhores e 20 mil piores. Mas é um critério e, para quem não tinha nenhum, é um passo. É muito comum a gente ser negativo e destrutivo. Onde não existia nada e passa a existir alguma coisa é melhor do que quando não existia nada. Sobretudo quando a gente gostaria de ser fiscalizado, como é o nosso caso.

FOLHA DIRIGIDA : Qual o principal problema enfrentado hoje pelas instituições privadas de ensino?
JOÃO UCHÔA : Eu acho que o problema é o de qualquer ramo da atividade privada, que é melhorar a qualidade do produto, ser cada vez melhor. O que eu acho que está havendo mesmo é que, num mundo que está todo ele em transformação, o ensino também está em transformação, mesmo que a gente não queira e não saiba para onde ele está se transformando. Mas esta é a dificuldade normal de quem faz alguma coisa. Quem faz alguma coisa tem que encontrar alguma dificuldade e nós encontramos a dificuldade da natureza. Eu diria que são dificuldades da natureza. Nós precisamos melhorar o ensino, que é o nosso produto, e adequá-lo a um mundo que muda todo dia. Como fica difícil todo dia ter uma coisa adequada, esta é a dificuldade do ensino.

FOLHA DIRIGIDA : E como a Estácio tem feito para se ajustar ao ritmo imposto pela novas tecnologias?
JOÃO UCHÔA : Trabalhando 24 horas por dia. Trabalhando sábado, domingo, todo mundo trabalhando intensamente. A hora que você chegar vai estar todo mundo trabalhando. É a única coisa que a gente podia fazer: prestar atenção e trabalhar. É o que a gente tem feito.

FOLHA DIRIGIDA : Em qual dimensão as novas tecnologias têm auxiliado a Estácio no desenvolvimento de seu trabalho?
JOÃO UCHÔA : Eu não tenho computador, eu não tenho telefone celular, eu não tenho aparelho de som sofisticado, eu não tenho fax. Eu não tenho nada disso porque não gosto, mas a Estácio tem. Aqui dentro da minha sala eu não gosto, não uso e não acho necessário.

FOLHA DIRIGIDA : A tecnologia não faz falta no desenvolvimento do seu trabalho à frente de uma grande universidade?
JOÃO UCHÔA : Eu não só acho que não faz falta. Eu acho que atrapalha. Eu acho que é muito ruim. Eu acho que quando eu era moço a dificuldade era colher informação. A gente não tinha muito onde se informar. Hoje, que eu estou ficando velho, a dificuldade é eliminar informação. Há uns caras aí com computador que têm um bilhão de informações para ele, só que ele não precisa. Quando vem a informação que ele precisa mesmo, não tem mais espaço na cabeça dele. Está tudo lotado. Então eu acho que não precisa disso. É claro, eu preciso de um computador para cadastrar gente, e isso eu tenho. Aliás, eu acho que a Estácio, no Rio de Janeiro, é a instituição de ensino que tem os mais sofisticados equipamentos. Acho que nenhuma faculdade é igual à nossa em sofisticação. Eu acho que para execução, para operação, essa tecnologia é importante, até para o ensino. Para o uso diário, para a administração superior, eu acho que é daninho, é ruim. Quando eu vou conversar com outro empresário e ele abre um laptop, eu já acho que ele é de segundo time.

FOLHA DIRIGIDA : O desempenho do Brasil é muito baixo nos indicadores educacionais e ainda há um volume preocupante de analfabetos. O que pode ser feito para mudar esse quadro?
JOÃO UCHÔA : O analfabetismo não é um problema com o qual eu lide. Por exemplo, eu acho que se o Brasil amanhã começar a ter muita gente fazendo mestrado, doutorado, pós-doutorado, MBA, eu acho que vai ser muito. Acho que é péssimo para o país e para as pessoas. É um mito que todo mundo precise estudar. Isto não é verdade. A pessoa pode ser analfabeta e ser uma pessoa muito expressiva, muito inteligente, muito bem sucedida. E pode ser um pós-graduado e ser uma besta completa. Eu não acho que seja necessário esse estudo todo.

FOLHA DIRIGIDA : A educação não faz falta?
JOÃO UCHÔA : A educação mínima ofertada faz falta, mas não para todos. Eu trabalhei com o Amador Aguiar, que fez o Bradesco e não tinha o segundo grau. Para ele não fez falta.

FOLHA DIRIGIDA : Não são exceções?
JOÃO UCHÔA : Mas exceção existe, também conta. E se ele tivesse o segundo grau? Talvez não fizesse o Bradesco, fosse advogado do Bradesco. Eu acho que essa questão de educação é muito exagerada. Teve um menino em São Paulo, estudante de Medicina, que pegou uma metralhadora e metralhou todo mundo num cinema. Aí foram interrogar o pessoal na rua, vira uma senhora e diz "enquanto não houver educação no Brasil.." O cara fazia Medicina. Eu acho que já é um jargão. Educação, saúde, transporte... Há frases que as pessoas ficam falando e não sabem por quê. Se você chega no Nordeste, em certas regiões, tem um menino trabalhando com 12 anos, e minha origem é de lá, aí vem o cara com a educação e diz que ele tem que ir para o colégio. Não tem que ir para o colégio não. Ele pode não ir para o colégio e estar muito bem.

FOLHA DIRIGIDA : O analfabeto é analafabeto porque quer?
JOÃO UCHÔA : Não, não é analfabeto porque quer, como às vezes, a gente também não é advogado porque quer. Como é o meu caso, eu não me formei advogado porque quis, eu arranjei emprego no Fórum e acabei indo para Direito. Mas, se em vez do Fórum, fosse para o Ministério da Marinha, talvez hoje eu fosse um oficial da Marinha. Esse livre-arbítrio é muito relativo. E acho que o cara não é ignorante porque quer, mas quem disse que ele quer ser culto? Ele pode não querer ser culto e a gente vai lá e quer obrigar que ele seja culto. E se ele não quiser? Nós temos que impor, porque ele tem que querer. Onde já se viu não querer estudar? Mas o cara tem direito de não querer estudar. Eu tenho quatro filhos e só um que se formou, três não se formaram, não senti nada, não aconselhei nenhum a estudar. Se nenhum quisesse estudar, para mim também era muito bom. O cara está aí para levar a vida que ele gosta, para ser feliz do jeito que ele gosta, a realidade da vida não é estudar. Estudar é uma opção, quem quiser faz, quem não quiser não faz e não fica pior porque não fez.

FOLHA DIRIGIDA : As pesquisas de desenvolvimento também revelam que muitas doenças letais estão associadas à falta de educação.
JOÃO UCHÔA : O que eu conheço de escravo com 120 anos, a maioria é tudo ex-escravo, 120 anos. Outro dia no Peru tinha um com 156 anos, um índio peruano. Agora, o que tem de empresário morrendo aos 40 anos de enfarte... É uma mentira. Essa pesquisa é mentira. Quem o enfarte mata? Cara bem-sucedido. Não acho que dá mais doença no pobre do que no rico, nem acho que o rico se trate melhor do que o pobre, porque eu acho a Medicina tão ruim hoje, que o rico não leva vantagem nehuma. Cada um tem sua cabeça e eu estou sendo franco dizendo a você o que eu penso.

FOLHA DIRIGIDA : Em 30 anos a Estácio passou de 166 alunos para 90 mil e, hoje, é uma das universidades que mais crescem. Qual é a receita deste sucesso?
JOÃO UCHÔA : Eu acho que a gente trabalha muito e tem um regime de trabalho com muita independência, muito pouco centralizado. Eu acho que ela cresce porque eu não centralizo. Eu acho que essa distribuição do poder dentro da Estácio faz ela crescer. Aqui não tem um comando central, é muito distribuído. Temos uma maneira de trabalhar que é muito peculiar da Estácio. É possível que tenha sido isso que fez a gente crescer, ou então, pode ser que seja sorte.

FOLHA DIRIGIDA : Qual o significado da palavra sorte no dicionário dos negócios?
JOÃO UCHÔA : Existe sorte em tudo, nos negócios, na saúde. Pode ser o nosso caso. Pode ser que a gente tenha crescido por acaso. E aí eu fico atribuindo a essa ou aquela causa. Pode ser por uma causa que eu ignoro, pode ser que a gente cresça por uma coisa que eu nem sei direito por que foi, mas a verdade é que cresceu mesmo e foi a que mais cresceu.

FOLHA DIRIGIDA : O que levou o senhor a transferir seu campo de interesse da Justiça para a educação?
JOÃO UCHÔA : Eu não me interessei pela educação e nem acho que eu seja uma pessoa muito interessada em educação. Eu sou interessado na Estácio de Sá, isso é que é importante. Estou interessado no Brasil? Não, não estou interessado no Brasil. Na cidadania? Também não. Na solidariedade? Também não. Estou interessado na Estácio de Sá.

FOLHA DIRIGIDA : A Estácio de Sá não é cidadã, não é solidária, não é brasileira?
JOÃO UCHÔA : A Estacio de Sá é uma instituição que quer dar o melhor ensino possível às pessoas, para elas fazerem desse ensino o uso que quiserem. Isso é a Estácio de Sá.

FOLHA DIRIGIDA : As universidades privadas não se destacam em pesquisa. Por quê? Como são as relações da Estácio com a pesquisa?
JOÃO UCHÔA : As pesquisas não valem nada. A gente olha todo mundo fazendo tese, pesquisa e tal, mas não tem nenhuma sendo aproveitada, raríssimo, é uma inutilidade pomposa, é uma perda de tempo federal. Aquilo ali vai dar um monte de título para o cara, ele vai arrumar um emprego bom e vai trocar cartãozinho com o outro que pesquisa também e fica aquela troca de reverência, para um lado e para o outro, mas a pesquisa em si não vale nada. As faculdades privadas não fazem pesquisa porque não querem jogar dinheiro fora. Estou hoje trabalhando muito, a gente estava com 137 pesquisas em andamento, não tinha uma que prestasse. Parei todas elas e vamos começar a fazer pesquisa útil. E o que é pesquisa útil? É aquela que pode ser aproveitada pelo homem comum.

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