Sermão do Mandato (1643),
de Padre António Vieira, deram uma profunda significação
no meu entendimento de construção amorosa.
Há um pulo no texto em que se pode fazer, de saltar da
consideração religiosa para a das relações entre homem e mulher,
ou para os que a querem, de outras formas. Mesmo que tiremos
as formas religiosas, do todo sempre sobre algo. E não é fácil
transformar as relações, mesmo que teoricamente, de sentimento
fora desse arcabouço de pressão ocidental cristã sobre nossos
pensamentos.
Contudo, é da liberdade de sonhar, e de escrever sem métrica que
podemos transpor o belo escrito do Pr Antônio Vieira para os
nossos desígnios.
Como sou um tarado pela esperança, mesmo estando um pouco
brigado com a insistência, e me vendo como namorado
da impertinência, sou seduzido pelo 'contrário daquela luz
que vai embora', onde não se vai embora o que ilumina,
se não, vem algo mais forte ainda.
Naõ importa se tudo corre e nada fica...
Embora sempre fique marcas, sinais, que nunca são os mesmos,
com os mesmos sentidos e objetivos do que foi, mas
é o que destinamos como marcos das nossas lembranças
é o que vale e o que fica e corre conosco.
O texto integral é uma ótima diversão, aqui vai um aperitivo!
O primeiro remédio que dizíamos é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos. Baste por todos os exemplos o do amor de Davi.
Em todas as outras coisas o deixar de ser é sinal de que já foram; no amor o deixar de ser é sinal de nunca ter sido. Deixou de ser? Pois nunca foi. Deixastes de amar? Pois nunca amastes. O amor que não é de todo o tempo, e de todos os tempos, não é amor, nem foi, porque se chegou a ter fim, nunca teve princípio. É como a eternidade, que se, por impossível, tivera fim, não teria sido eternidade: Declarans amicitiam aeternam esse, si vera est.
Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.
Sermão do Mandato, 1643 – Padre Antonio Vieira
Nenhum comentário:
Postar um comentário